Embora tudo pedisse um pouco de silêncio – o excesso de livros amontoados pela casa, os corpos moídos por inúmeras noites sem verdadeiro descanso, a rigorosa chuva que caia lá fora –, todo o espaço, tanto quanto todo tempo deveriam estar preenchidos pela fala. A brandura das vozes junto às poucas mudanças de tema dariam o ritmo como o de longas pinceladas. Três dias e o quadro estaria pintado. As orações, também como preces, haveriam coberto o que aparentemente era superfície. Acúmulos de uma mesma cor em alguns pontos demarcariam os momentos em que a lembrança de dores comuns adensaria o significado dos verbos e locuções adverbiais.
Mesmo que o silêncio tivesse pretendido criar lacunas naquela tela, este haveria sido sabotado pela regência que as peles – na conversa dos corpos – imporiam ao que até então eram só palavras.