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Crua

Ela

Quando não é a própria noite
é a pele que me reflete a lua
exposta
fratura
que me trouxe à tona o osso

a carne crua

uma parte branca
outra carmim

de um lado ela

do outro
apenas a tentativa
de estupro do não

outrossim,
não havia ali aflição

o silêncio
que santifica
o excesso de zelo

impuro
jaz entranhado
o apelo.

O livro

 

Deu seu último suspiro e foi morar no fundo de mim. Ou será que apenas adormece na penúltima prateleira, encostado em uma triste história sobre um faquir? De tempos em tempos, lhe visito. Digo uma prece. Um agradecimento póstumo. Nada se esclarece. 

Às vezes acho que sangra.

 

 

Tudo lhe era ofegante. Nada na vida parecia ter muita graça senão o sufoco: o engodo que causa a decepção certa. Nada na alma parecia muito certo. O que procurava viver era sempre um tentativa de desvio, embora nunca tivesse sabido ao certo o que daquilo que lhe habitava poderia ser considerado de fato ela, dela, para ela.

Haveria formas de viver que fosse certa a inabilidade de lidar consigo mesma? Eis a pergunta que constantemente lhe faria perder o sono, não como castigo, mas abrigo desse desvario que existe porta afora.

Deparar-se com os olhos de. Para ela. Isso sim tinha algo de inato.

 

Sintaxe

Embora tudo pedisse um pouco de silêncio – o excesso de livros amontoados pela casa, os corpos moídos por inúmeras noites sem verdadeiro descanso, a rigorosa chuva que caia lá fora –, todo o espaço, tanto quanto todo tempo deveriam estar preenchidos pela fala. A brandura das vozes junto às poucas mudanças de tema dariam o ritmo como o de longas pinceladas. Três dias e o quadro estaria pintado. As orações, também como preces, haveriam coberto o que aparentemente era superfície. Acúmulos de uma mesma cor em alguns pontos demarcariam os momentos em que a lembrança de dores comuns adensaria o significado dos verbos e locuções adverbiais.

Mesmo que o silêncio tivesse pretendido criar lacunas naquela tela, este haveria sido sabotado pela regência que as peles – na conversa dos corpos – imporiam ao que até então eram só palavras.

Playing around

Devolvo tuas palavras com a saliva de minha boca. Vem. Bebe. Sei da sede.

Mas te deténs. Disfarças teu desejo debaixo da pele, te escondes detrás desse alguém – que não conheço. Simulas uma outra vida e me dizes cinicamente que não és meu. Sei de ti.

Gosto do teu Eu que vem à tona no quando de estarmos sós. O teu silêncio vira grito.

O meu olvido.
Teu desespero.
É quando descobres que eu minto.

Não amo. Não sinto(,) amor. Sou refém do meu próprio deserto. Não sou tua, nem minha, tampouco de outro alguém (sou de muitos, se queres saber ao certo).

A casca dura. Foi a cura. E no entanto.

Para ti, ouso amolecer (de quando em quando):

sobre teu corpo.
Devolve minhas palavras – na tua boca.

Nosso amor sempre foi essa brincadeira de mau gosto: gramaticalmente tu finges não me querer, enquanto matematicamente finjo ressurgir o que já é morto.

Drowning

Eu cresci acostumada ao azul e ao frio profundos. Acostumei a pele. Devotei-me ao silêncio. Importava sentir aquela bomba em mim: tum-tum. Cada músculo do corpo latejando; respirações alternadas: duas braçadas: sim. Quando o cansaço: não. Mas o corpo procura ar, (nem) sempre sabe onde e como…

Acostumei-me ao sufoco, à ausência. Essa falta que contrai meu diafragma, e expande meus pulmões.

Aos dezoito deixei as águas… Aos vinte e um mergulhei: você.

Vinte sete e lhe perdi…

E eu lhe (me) perguntava: como? E se?

Desde então me debatia. Tudo o que tinha era sono.

Mas um dia desses uns olhos castanhos me atravessaram a carne. E eu decidi tentar outra vez. Quero que ele seja de novo o azul e o frio na minha tez. O silêncio que consegue me deter. Como há muito tempo não ouvia: tum-tum, tum-tum, tum-tum…

Tomara que ele não tema – a pele áspera.

Não resisti; ele tem o seu nome. Tem outro gosto…

Minha boca saliva.

Sede-de-ter-sede-de-ter-sede-de-ter-sede: de-ser-de.

Lucid dreams

Nunca pretendi vencê-lo, então, dei-me logo por vencida. Não pude apagá-lo de mim, ainda mais agora que foi tatuado do lado esquerdo. Era o único jeito… Era preciso tê-lo. Por perto. Como um satélite. Acerca. Envolto. Como o cheiro bom de todas nossas manhãs.

Voltamos às gentilezas, às cartas trocadas – com direito a desenhos coloridos nos cantos da página. Voltamos às ligações intransitivas e desesperadas – nos ligamos por motivos banais – e eu já acabei minha cota de desculpas esfarrapadas.

Voltamos aos chocolates. Ele já não me reconhece em minha magreza. Estimula o retorno de cada grama. Desde que foi embora, minhas roupas diminuíram duas medidas. Reclama que já não há tantas carnes. A saliência dos meus ossos o deprime. Ele transformou-me em outra mulher: não mais bela, sublime.

Na medida certa, voltamos aos sorrisos.

Tudo como antes: delicadamente inquieto: deliciosamente impreciso.

(Des)ata-me

 

Algo em mim fraqueja. Já não posso lidar com as falcatruas do desejo. E os desejos estão fincados na minha pele como anzóis – e as linhas todas estão atadas em você. Quando suspeita que vai me perder, você as puxa com toda a força, e os anzóis se encarregam de toda dor. À distancia você só sente, pela tensão das linhas, meus sopapos – tentativas inúteis de me desvencilhar. À distancia, você não imagina o sangue vertido e a falta de ar (todas as vezes que você resolve me içar de minhas profundas águas para o seu vazio).  

Eu já não quero lidar com tantos desejos. Essas dores múltiplas, e de uma só vez, criam uma fadiga, uma falta dos sentidos. Mas desfazer-me de você não é uma opção. Fui fisgada de um jeito que se tento tirar os anzóis… 

É preciso que você corte as linhas (e deixe de ser tão bonito).

 

Pensava ter esgotado as lembranças naquela série de cartas que enviei, mas não foram suficientes. Nunca são. Cada palavra parece ter carregado consigo certa esperança, certa vida, que não tenho mais aqui. A vida que se foi com você ainda não voltou; nada retomou novo curso. Não sei o que ainda faço revisitando os rascunhos. Pequenos jazigos de. Tento entender o que vai com o que: açúcar no café? Lágrimas no azul? Nesses dias, comecei novo livro, velha história – enxergar você em tudo que. Em cada palavra de Auster, Invisible. Nina Simone na vitrola, os sentimentos martelam as cordas esticadas de dentro – em mim. Melodia. Tudo que tenho para acompanhar esse meu desritmo. Coração já não bate tum-tum. Penso que bate só tum, solitário: “waiting for a new tune.”

Epílogo:

 

Se você me perguntar se ainda é seu
Todo o meu amor, eu sei que eu
Certamente vou dizer que ‘sim’
Mas, já depois de tanta solidão
Do fundo do meu coração

Não volte nunca mais pra mim

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